Wednesday, February 9, 2011

Egito... A continuação - 6/2/2011

Todos nós sabiamos que cedo ou tarde, de um modo ou de outro, Israel iria ser culpada pelos protestos ocorrendo no mundo árabe. Só não sabíamos quem iria conseguir este feito. Afinal, é óbvio que as demonstrações – da Tunísia ao Yemen, passando pela Algeria, Jordania e Egito, começaram espontaneamente por razões nada a ver com Israel. Elas começaram com um jovem Tunisiano de 26 anos que se ateou em fogo em dezembro porque, apesar de ter acabado a faculdade, só conseguia ganhar a vida vendendo legumes na rua. A gota final veio quando a policia confiscou seus legumes dizendo que ele não tinha licença. Ele morreu das queimaduras e virou um símbolo para todos aqueles que apesar de terem estudado não conseguem um lugar ao sol no mundo árabe.

Estes protestos desnudam o argumento que todas as tensões no Oriente Médio são causadas por Israel. Longe de estarem com ódio do estado judeu, os participantes dos protestos talvez inconscientemente, estão furiosos e frustrados precisamente porque seus países não são mais parecidos com Israel – que são tão sem liberdades, com tanta resistência à uma participação genuína do povo no governo, com tão poucas oportunidades economicas, tão injustos.

Apesar de vermos hoje exemplos de sentimentos anti-Israel, não havia nada assim nos primeiros dias dos protestos no Egito. Não havia nada anti-americano tão pouco. De fato, muitos queriam deixar claro que os protestos não eram contra o ocidente. Eram contra um tirano corrupto, um déspota determinado a ficar no poder, sem ligar para o sentimento e a vontade do povo.

Mas…. Mas…. O presidente da Síria, Bashar Assad, logo encontrou uma maneira de jogar pelo menos parte da culpa do caos na porta de Israel. Numa entrevista no Wall Street Journal na segunda-feira, ele explicou com sua tradicional arrogância, que o seu regime era “estável” porque sempre se manteve proximamente ligado às crenças do povo. Isto, para ele é o fundo da questão. Assim, de acordo com ele, a causa dos protestos na Jordania e Egito foi a paz que fizeram com Israel e seus governos estão pagando o preço. Isto é de uma incoerência suprema para este pilar da democracia que ele não é.

Assad vem de uma seita minoritária, os alawitas, que não tem qualquer apoio do público. Ele herdou a presidência de seu pai somente por causa de nepotismo (e porque seu irmão mais velho morreu num acidente de carro). Chegou ao poder através de eleições presidenciais como candidato único e retém o poder somente porque a oposição morre de medo que ele faça como o seu pai fez, há 29 anos atrás quando arrasou a antiga cidade de Hama por sua oposição islâmica.

É irônico, ouvir de um tirano como ele que seus irmãos árabes autocratas tenham posto em perigo seus regimes porque não respeitaram a vontade do povo!!! Seria muito doce se os esforços coordenados pelo Facebook na Síria conseguissem levar o povo à rua e desmascarar este déspota. Porque estes governos estão vendo que não é tão fácil mandar o exército para a rua para atirar em milhares de pessoas.

É para refletir muito o fato do Oriente Médio estar tão desestabilizado, com o Egito imerso em protestos sem fim, o rei da Jordania ter dissolvido seu gabinete em meio a protestos, o Hamas governando Gaza e pronto para explorar qualquer vacilo de Mahmoud Abbas na Judéia e Samária, e o Irã controlando o Líbano através da Hizbullah. O regime totalmente intolerante de Assad é aparentemente o mais estável da região. Por agora.

Do ponto de vista de Israel, é deprimente. Depois da paz com Egito assinada em 1979, acreditávamos que Israel havia tomado o primeiro passo para a normalização com seus vizinhos. O segundo passo, a paz com a Jordânia em 1994, confirmou o sentimento, junto com a abertura de várias representações em países do Golfo árabe e Marrocos.

Houve também um momento, depois do assassinado de Rafik Hariri em 2005 no Líbano que se esperava uma democratização do país. Houve outro momento em 2009 quando esperamos que o povo do Irã iria chutar os mullas do governo. E houveram outros momentos em que tinhamos certeza de estarmos próximos de uma paz com a Siria e os palestinos. Hoje, a corrente virou e as esperanças de Israel estão se desfazendo.

Neste momento, estamos num processo histórico paralelo ao pós 1979. O processo que viu o Egito de Sadat assinar a paz com Israel e o Irã ser jogado numa ditadura islâmica fundamentalista. Esta mesma ditadura que coordenou a morte de Sadat, que criou o Hamas e o sufocou o Líbano. O processo que viu a Turquia se distanciar do ocidente e a irmandade islâmica procurar tirar vantagem da bagunça no Egito para tomar o poder, repetindo o feito do Irã de 32 anos atrás. O processo que culminou no Irã próximo da bomba nuclear.

Não há cultura de democracia no Oriente Médio e estas mudanças mostram que não podemos mais esperar calma com o Egito e a Jordania. No caso do Egito, com todas as armas sofisticadas fornecidas pelos Estados Unidos, ele será uma ameaça estratégica genuina. Israel hoje tem que estar em alerta vermelho em todas as suas fronteiras.

Na semana passada falei de como Obama havia se comportado mal em relação ao que estava se passando no Egito, totalmente jogando um aliado dos Estados Unidos aos cães. Depois de uma semana tentando convencer Mubarak a sair do governo, ontem, seu enviado à região disse que talvez fosse melhor Mubarak ficar até completar a transição. Esta ambivalencia é mais do que tudo prova de que Obama não sabe o que está fazendo em política externa. Obama não queria se ver do lado errado da história, nem de ter abandonado as massas de egípcios que exigem democracia e as liberdades que os americanos têm. Mas a posição firme que eu advoguei na semana passada, de ficar do lado de Mubarak e ao mesmo tempo exigir dele novas eleições e reformas, hoje não se aplicam.

A América de Obama subestimou o perigo da Irmandade Islâmica que é extremamente flexível e paciente, e sabe quando usar a violência ou tomar o poder. Hoje Hilary Clinton disse que é possível conversar com a Irmandade para inclui-los no processo democrático. O que ela parece esquecer é a antipatia que a Irmandade muçulmana tem pela democracia, pela igualdade e tolerância e seu brutal anti-semitismo e hostilidade a Israel.

Os Estados Unidos deveriam ter deixado bem claro que grupos assim não poderão ser incluidos num próximo governo egípcio – e depois de falhar com o povo iraniano em 2009, deveria fazer de tudo para encorajar a liderança secular e moderna no Egito. Deveria ainda ter deixado claro que para continuar recebendo a ajuda de bilhões de dólares dos Estados Unidos, que todos os partidos deverão se obrigar a manter os tratados passados inclusive o de paz com Israel e se comprometerem a combater o Hamas. Em vez disso, a Casa Branca escolheu encorajar a “representação democrática” seja lá o que isso for incluindo “partidos não seculares” em claro apoio à Irmandade islamica.

E enquanto a America está tropeçando em seu caminho para alcançar os eventos, o Irã, vendo as coisas penderem para o seu lado está nos dando uma lição de cinismo político. Menos de 2 anos após ter rolado por cima de seus demonstradores, enforcando dezenas deles em praças públicas, Teherã está apoiando e elogiando a coragem, o espírito e a legitimidade do povo egípcio.

Da perspectiva Israelense, estes eventos mostram sua vulnerabilidade. Territorial e demograficamente reduzida pelos vizinhos, Israel não mais tem aliados na região e não muitos além dela. A Europa aceitou a mentira das “fronteiras de 1967” para um estado palestino e a administração Obama pelos seus atos e pressões nos últimos dois anos mostrou a mentira das promessas de campanha, do vínculo inquebrável da América com Israel.

O que estes protestos mostraram é que os árabes podem não gostar de israelenses e seus assentamentos na Judéia e Samária. Eles podem não gostar de judeus em geral. Mas parece que eles gostam menos ainda de terem suas vidas definidas e arruinadas por ditadores.

Talvez se os países do ocidente estivessem menos obscecados com assentamentos e boicotes a Israel e tivessem olhado o que estava se passando na Tunisia, Yemen, Jordania e Egito, eles tivessem visto os sinais de perigo e teriam encorajado reformas para ajudar o povo.

Mas nestes dias e semanas de tumulto regional, ficam evidentes os riscos de fazer concessões na esperança em vez de na certeza de obter a paz, o risco de negociar com regimes que não têm uma genuína legitimidade ou a capacidade de honrar a longo prazo acordos assinados. Será que os líderes no ocidente ainda acreditam que a melhor política é pressionar Israel a se retirar para as linhas de armistício de 1948 – agora que está cercada pelos brutos da Síria, os libaneses controlados pela Hizbullah, o regime incerto da Jordania, o Hamastan de Gaza e um Egito totalmente imprevisível?

Será que não está na hora destes países mostrarem um pouco de humildade e repensarem sua política no Oriente Médio? Será que eles não podem por uma vez ouvirem atentivamente as preocupações israelenses? Em março de 1979 Israel assinou a paz com o Egito. Em abril do mesmo ano o Irã se tornou uma republica islamica. Agora, mais do que nunca, temos certeza que irá ser o evento do Irã e não a paz com o Egito que irá definir o curso da história no Oriente Médio.

Tuesday, February 1, 2011

A Crise no Egito - 30/1/2011

Os eventos deste final de semana no Egito são extremamente preocupantes. Não há qualquer posição que a administração Obama possa tomar que irá resolver o problema completamente mas tudo o que o presidente Americano fez até agora, foi o pior possível.


Esta é a primeira crise internacional de Obama e em vez de tomar uma atitude decisiva ele se reune com conselheiros e representantes do Departamento de Estado dia após dia, enquanto o regime de Mubarak é simplesmente chutado para fora do Egito. A situação não poderia ser mais perigosa e este pode ser o maior desastre para a região e para os interesses do ocidente desde a revolução iraniana, 30 anos atrás.

Peritos e a mídia têm sido muito otimistas e não estão analisando o assunto com seriedade. O cenário mais provável não é sequer mencionado: que esta revolução possa levar o Egito a se tornar radicalmente islâmico, se não agora, em alguns anos.

Jornalistas mostram seu entusiasmo quando dizem que as demonstrações são espontâneas e sem liderança definida, mas são precisamente situações de vácuo político que dão a oportunidade para grupos bem organizados, tomarem o poder.

Será que a nomeação de um novo vice-presidente, Omar Suleiman, o eterno chefe da inteligência e de um novo primeiro ministro, Ahmed Shafiq, líder da Força Aérea, irá estabilizar a situação? Nomear alguém que organizou a repressão do país, não é exatamente um passo em direção à democracia.

Existem duas possibilidades básicas: o regime irá se estabilizar com ou sem Mubarak ou o poder estará disponível para quem abocanhá-lo primeiro. Há vários precedentes para a segunda situação como a revolução iraniana em que cidadãos do país foram para as ruas para exigir liberdade e hoje têm Ahmadinejad como presidente. De fato, nunca, nunca houve um movimento revolucionário de país muçulmano que gerou um governo pro-ocidente ou democrático. Lembrem as demonstrações em Beirute para exigir liberdade e hoje é a Hizbullah quem manda no Líbano. Lembram do movimento democratico entre os palestinos e eleições livres? Os palestinos escolheram e hoje é o Hamas que está no poder em Gaza. Isto para não falar do movimento democrático na Algéria em que dezenas de milhares de pessoas foram mortas.

Uma pesquisa recente do Pew poll mostrou que 59% dos egípcios favorece os islamistas e somente 27% quer os modernistas no poder. O problema é o seguinte:

De um lado, todo o mundo sabe que o President Husni Mubarak representa a continuação de um governo que tomou o poder no Egito em 23 de julho de 1952. Desde então, os egípcios vem sendo governados de modo despótico e com muita corrupção e repressão. Por outro, Mubarak deixa muita propaganda anti-americana ser disseminada nos órgãos oficiais do governo; ele não apoiou a América nas sanções contra o Irã e tem se esquivado dos planos de paz entre Israel e os palestinos.

Mas apesar de tudo, a perda do Egito será uma tremenda desfeita para os Estados Unidos. Além disso, qualquer governo populista, islamico ou nacionalista, poderia reacender o fogo no conflito árabe-israelense. É bom lembrar que a Guerra do Sinai em 1956, a Guerra dos Seis Dias em 1967 e a Guerra de Yom Kippur em 1973, foram todas lideradas pelo Egito.

Assim, se por um lado os Estados Unidos têm interesse na sobrevivência deste regime com ou sem Mubarak, por outro Obama quer mostrar que ele apoia reforma e democracia para que o próximo lider do país veja os Estados Unidos com simpatia. Esta a posição “pró-democracia” é baseada na crença de que o Egito irá produzir uma liderança moderada, democrática e pró ocidente, mais resistente à um desafio islâmico. Alguns na administração chegaram a dizer que a irmandade islâmica nem seja uma ameaça real!

Obama disse que sempre avisou Mubarak de levar reformas políticas e econômicas à frente; que a violência não é resposta para resolver os problemas do Egito e que o governo deve ter muito cuidado ao usar a violência contra pessoas nas ruas; Obama ainda condenou o corte nos meios de comunicação e internet dizendo que a liberdade de expressão e de comunicação são necessários para que as pessoas expressem suas preocupações.

Como sempre para Obama, no papel tudo é lindo: Mubarak faz a reforma; a oposição não usa violência e tudo acaba bem. Infelizmente, este cenário não tem nada a ver com a realidade. Se Mubarak fizer o que Obama quer, ele irá cair e não há ninguém para tomar seu lugar. O povo nas ruas do Egito quer liberdade, mas como vimos nas eleições do Irã no ano passado as demonstrações do povo que também queria liberdade e Obama não fez nada a respeito.

Não importa o que os Estados Unidos disser ou fizer agora, não irá obter a gratidão de milhões de egípcios. Os novos líderes, culparão a América por seu apoio à Mubarak, sua oposição ao islamismo, seu apoio a Israel, a influência cultural, e por não ser um país muçulmano. Não pensem que o único problema dos Estados Unidos é o seu apoio a Israel.

Nunca podemos esquecer a história. Vejam o que aconteceu no Irã em 1979. Na ocasião, os Estados Unidos fizeram exatamente o que Obama está fazendo hoje: anunciar o apoio ao governo mas exigindo dele reformas. O Shah não partiu para a repressão do movimento porque em parte, sentiu que não tinha o apoio americano. A revolução cresceu e o regime caiu. A mídia na época era unânime ao dizer que o povo iraniano era educado e que a revolução seria moderada, que os islamistas não venceriam. É, vimos o resultado.

Não há um movimento moderado organizado no Egito. O único grupo moderado, Kifaya foi tomado pela irmandade islâmica. Hoje é liderado por Abdel Wahhab al-Messiri um antisemita virulento. Isto não quer dizer que não há moderados, pró-democracia no Egito. Mas eles não têm nem dinheiro, nem poder ou organização. De fato, o Egito é o único país árabe em que os democratas se uniram aos islâmistas pensando erroneamente poder domina-los se tomarem o poder. A realidade é que não há hoje qualquer movimento que possa realisticamente competir com os islamistas.

Um estudo da Irmandade no parlamento egípcio mostra como eles são radicais. Eles querem um estado islamico governado por Sharia e em Guerra com Israel e os Estados Unidos. Mas a grande massa da mídia argumenta que a Irmandade no Egito nunca se envolveu com terrorismo. Mas por que será? Porque toda a vez que eles tentaram incitar a violência, eles foram duramente reprimidos, seus líderes enviados a campos de concentração, torturados e mortos.

A elite do país quer se salvar e se tiver que sacrificar Mubarak, que assim seja. Mas se houver um vácuo na liderança, será muito ruim. Provavelmente o que irá acontecer é que o novo governo irá ganhar apoio através da demagogia: eles culparão a América e Israel e irão proclamar que o islamismo é a resposta. É assim que tem acontecido no Oriente Médio como vimos no Líbano e em Gaza. Nos dois, movimentos pela democracia produziram regimes islâmicos, anti-democráticos, que endossam o terrorismo aliados do Irã e da Síria.

A ênfase da política Americana deveria ser de apoiar o governo egipcio incondicionalmente. Os líderes no Cairo não podem ter qualquer dúvida que os Estados Unidos está do seu lado. Se for necessário mudar a liderança, o governo Americano pode ajudar o processo atrás das cortinas. Mas até agora, o que Obama tem feito, é exatamento o que Jimmy Carter fez quando da revolução iraniana em 1978. Obama mostrou que Washington não mais apoia o governo egípcio.

Sem a confiança para resistir esta revolta, o sistema egípcio entrará em colapso, deixando um vácuo que não irá ser preenchido por amigos do ocidente. Isto poderá ser potencialmente desastroso para os Estados Unidos e para o Oriente Médio. A Jordânia já está sentindo o começo de uma revolta em seu país e até a Arábia Saudita teve que lidar com protestos neste final de semana.

A maioria da mídia diz que um governo islâmico anti-americano, aliado ao Irã e pronto para recomeçar a Guerra contra Israel não poderá tomar o poder no Egito. Esta análise é um risco grande demais para aceitarmos, especialmente vindo daqueles que estiveram tão errados no passado.

Sunday, January 23, 2011

A FALÁCIA DAS "FRONTEIRAS DE 1967" - 23/10/11

Continuam os esforços dos palestinos para forçar a criação do seu estado sem ter que negociar com Israel e fazer as consequentes concessões que toda negociação exige. Numa entrevista à BBC esta semana, Nabeel Shaath, um dos negociadores chefes palestinos confirmou que o objetivo é trazer Israel à julgamento em setembro, na conferência de Durban III e como resultado forçar uma votação na Assembléia Geral para a criação do estado palestino.

No mundo de mitos criados em Ramallah, e sua ofensiva junto à chefes de estado pelo reconhecimento, a visita do presidente da Russia Dimitri Medvedev a Jericó nesta última semana, também teve seu papel distorcido. A visita havia sido planejada junto com uma visita a Israel que não ocorreu por causa de uma greve dos funcionários do ministério do exterior. Mas os palestinos em grande fanfarra omitiram este fato e publicaram que era a primeira vez que um chefe de estado vinha visitá-los sem incluir outras visitas na região.

Esta visita de Medvedev foi de fato, diferente. Ele só foi à Jericó, não a Ramallah. Ele não trouxe consigo nenhum empresário russo ou assinou qualquer acordo de cooperação importante. Ele simplesmente veio, fez um discurso e se foi. Ainda, diferentemente do mito palestino, ele não reconheceu o estado dentro das fronteiras de 1967. Medvedev disse que não iria mudar a posição russa que já havia reconhecido o direito dos palestinos à um estado em 1988 quando da declaração de Yasser Arafat.

E isso me traz à este novo mito que os palestinos enfiaram na guela do mundo. O mito das fronteiras de 1967. Os palestinos sabem e a comunidade internacional sabe que estas “fronteiras” não existem e nunca existiram. Elas nunca estiveram em qualquer mapa ou documento internacional e não têm qualquer base em direito ou fato.

Mais do que isto, não há qualquer lógica em dar força de fronteira a uma série de linhas incidentais de cessar-fogo que existiram por menos de 19 anos. Mas os palestinos continuam a apresentar o termo “fronteiras de 1967” como um termo internacional aceitável e com ele, obrigar Israel. Agora, um pouco de história.

O termo “linhas de 1967” se referem às linhas que o exército de Israel atravessou quando a guerra dos seis dias começou em 4 de junho de 1967. Estas linhas não se basearam em fatos históricos, formações geográficas naturais, ou acordos internacionais. De fato, elas nunca foram mais do que linhas de posicionamento do exército acordadas na Resolução 62 do Conselho de Segurança da ONU de 16 de novembro de 1948, e foram marcadas com caneta verde. Por isso são chamadas de “linhas verdes”. Elas serviram como base para o armistício assinado em 1949 com o Egito, a Jordânia, a Síria e o Líbano, em 1949.

A Resolução 62 estressou a natureza temporária destas linhas que deveriam ser mantidas “durante a transição para uma paz permanente na Palestina”, intimando que uma paz permanente involveria um acordo negociado de fronteiras bilaterais que seriam diferentes das linhas de armistício.

A linguagem dos acordos de armistício foram detalhadas sobre a natureza temporária e não política destas linhas para não ferir os direitos, reclamações e posições das partes num acordo final. Ela foi clara ao dizer que as linhas haviam sido ditadas puramente por considerações militares, “além das quais as forças armadas de cada parte não poderá passar”.

Declarações árabes de 1949 a 1967 confirmam este entendimento. Antes da guerra em 67, o embaixador da Jordânia na ONU disse que “há um armistício. Este acordo não fixa fronteiras; fixa uma linha de demarcação. O acordo não julga direitos políticos, militares ou outros. Assim, nós não reconhecemos território, não sabemos de fronteiras. O que sei é de uma situação congelada por um acordo de armistício”.

A natureza transitória destas linhas de armistício de 1949 foi reconhecida na resolução 242 do Conselho de Segurança de 1967, tanto reclamada pelos palestinos. Ela foi emitida depois da Guerra dos Seis Dias e diz em seu primeiro parágrafo: “que as partes têm que respeitar e reconhecer a soberania, integridade territorial e independência política de cada estado na região e seu direito de viver em paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, livre de ameaças e atos de força”. Não há qualquer exigência para Israel voltar às linhas de armistício de 1949 e nenhuma referência aos palestinos.

De fato, o Conselho de Segurança especificamente rejeitou a exigência árabe de que Israel retornasse todo o território conquistado em 1967. Em vez disso, foi pedido à Israel para se retirar de “territórios ocupados no conflito recente”, não de “todos os territórios” ou mesmo “dos territórios” e pediu ainda para que as partes sentassem e negociassem um acordo de paz baseado nos princípios desta resolução.

É muito interessante que durante o debate do Conselho de Segurança para esta resolução 242, o representando do Brasil, ao aceitá-la, declarou que “sua aceitação não implicaria que fronteiras não poderiam ser retificadas em acordo livremente negociado pelos estados interessados”. O Brasil disse que “tinha constantemente em mente que uma paz justa e duradoura no Oriente Médio precisa ser baseada necessariamente em fronteiras permanentes livremente negociadas entre os estados vizinhos”.

Não só o mundo, mas Yasser Arafat e seus substitutos, Abbas e Saeb Erekat também reconheceram este fato na “Declaração de Princípios do Governo Intermediário” assinado por Abbas em 13 de setembro de 1993, no qual os palestinos concordaram que as negociações de um status permanente com os israelenses, cobriria matérias como Jerusalem, refugiados, colônias, arranjos de segurança, fronteiras, relações e cooperação com vizinhos e outros pontos de interesse comum”.

Na véspera da assinatura desta declaração, Arafat mandou seu compromisso solene a Yitzhak Rabin, dizendo que a OLP se compromete com o processo de paz no Oriente Médio e para uma solução pacífica do conflito entre os dois lados e declara que todos os pontos referentes ao status permanente será resolvido por negociações”.

Claramente, a presente fixação de Abbas e Erekat em tentar dar a volta por cima no processo de negociação e conseguir o reconhecimento unilateral de um estado palestino dentro das fronteiras de 1967 vai contra o compromisso solene de Arafat de 1993. E vai contra todos os outros acordos assinados entre Israel e os Palestinos desde então.

Em todas as fases de negociação nunca houve qualquer referência a linhas de 1967 como fronteiras nem qualquer referência a qualquer obrigação de Israel a se retirar para trás delas. De fato, o terceiro estágio de negociações, depois que as partes teriam cumprido as obrigações das duas primeiras fases – que não ocorreu até agora -, haveriam negociações sobre o status final de fronteiras a serem reconhecidas por uma conferência internacional.

Claramente, se as partes querem usar as linhas de armistício de 1949 como base para negociar uma fronteira final, então ok. Mas isto só pode acontecer num ambiente de boa fé recíproca das partes, agindo conjuntamente, e não unilateralmente, determinando suas fronteiras, com base em seus interesses e vizinhança.

Estas coisas não podem ser ditadas de fora, seja pelas Nações Unidas ou por estados individuais.

Com base nisto, a questão se coloca de quando e se a liderança palestina irá admitir o absurdo de tentar inventar estas “fronteiras de 1967” que não têm qualquer base histórica, legal ou de fato. Do mesmo modo, poderiamos perguntar quando os palestinos verão que sua tentativa de ditar um estado palestino para a comunidade internacional de modo unilateral vai contra seus próprias obrigações, acordos e documentos reconhecidos internacionalmente.

De qualquer forma, como sabemos, esta não é uma guerra de batalhas justas. Nenhuma o é. Neste mundo quase qualquer um está livre de ter a opinião que quiser, mas ninguém está livre para distorcer fatos históricos. O Brasil mostrou ser no passado meritório de liderar na arena internacional porque reconhecia os fatos e a lei pelo que eram. Hoje, as coisas não estão mais tão claras infelizmente. Até agora, o mundo só pressionou Israel a fazer concessões e mesmo quando aceitas, os palestinos se esquivaram da paz. Talvez tenha chegado à hora do mundo dar um ultimato à eles para variar. Quem sabe se isto for feito o resultado não seja outro?