Sunday, April 5, 2020

O Pessach da Quarentena - 05/04/2020


Não é sempre que temos ocasião de falar de sentimentos e fé. Mas acho que hoje, às vésperas da Páscoa judaica temos que dar uma parada e refletir sobre o que está ocorrendo no mundo.

É algo sem precedentes que o globo inteiro esteja na mesma situação por causa de um vírus nanoscópico. Em todos os lugares, especialmente nos países mais desenvolvidos, há medo, sofrimento e mortes. E por mais que em 2020 tenhamos as tecnologias mais avançadas da história, ainda não conseguimos chegar a uma cura ou tratamento eficaz. Nestas circunstâncias extraordinárias, qualquer um, e certamente aqueles que têm um relacionamento com o Criador e creem num propósito maior, podem ver nesta crise de dimensões bíblicas uma mensagem divina.

A última vez que o mundo foi inteiramente afetado por uma catástrofe desta dimensão foi com o dilúvio de Noé. E depois dele D-us fez uma promessa solene a todas as criaturas vivas que a terra e os que vivem nela nunca mais seriam destruídos por um diluvio. E disse que quando houvesse um arco-íris Ele se lembraria desta promessa. Mas não tem nada sobre qualquer sinal para nós nos lembrarmos a manter o nosso lado do acordo.

Este pequeno vírus, causa dificuldades respiratórias e nos casos mais graves, enche o pulmão de fluidos, como se a pessoa estivesse se afogando. Talvez este seja o sinal para nos lembrarmos do que é realmente importante.

Igual a geração do dilúvio, temos tudo de melhor e mais avançado. Mas também nos deixamos corromper. Preferimos os “amigos” do Facebook, Twitter e Instagram aos amigos de verdade, àqueles que exigem de nós o esforço sobre-humano de levantar o telefone e gastar alguns minutos de conversa pessoal. Hoje, com o distanciamento social mandatório, sentimos quanto a mídia social é fútil e o contato pessoal faz falta.

Estamos acostumados a pensar somente em nós, nosso trabalho, nossas carreiras, deixando o ensino das crianças para as escolas. Nestas últimas semanas fomos obrigados a participar do ensino online e acredito que muitos pais foram surpreendidos com o que encontraram, positiva e negativamente.

As indústrias pararam, gerando muita ansiedade e desemprego. Mas elas também deixaram de jogar toneladas de lixo no ar, nos rios e oceanos dando uma oportunidade única para a natureza se curar, se refazer.

Pela primeira vez as fotos de satélite mostram céus limpos sobre a China com uma queda dramática de Dióxido de Nitrogênio emitido por carros a gás e queima de combustíveis fosseis. Residentes de Wuhan escreveram sobre sua surpresa ao ouvirem o canto de pássaros pela manhã que não tinha sido ouvido por décadas.

Animais selvagens foram vistos explorando as ruas desertas de grandes cidades. Gatos civetas na Índia, um puma foi visto na capital do Chile, Santiago, javalis desceram das montanhas para Barcelona e patos selvagens passearam perto do teatro Comedie Française no centro de Paris enquanto grupos de raposas invadem outros centros urbanos da França.

Em Veneza, na Itália, as águas dos canais severamente poluídas e congestionadas com gôndolas, estão tão limpas que trouxeram os peixes e cisnes de volta, algo que os moradores não se lembram de terem visto alguma vez.

Mas além do óbvio da melhora do meio ambiente, temos outros. Aprendemos que se pode vencer uma guerra ficando em casa. Nunca antes um oximoro destes poderia ser levado à sério. Mas hoje essas ações contraditórias estão em prática e são divulgadas por todos os líderes do mundo. Por outro lado, o amor e o carinho são demonstrados ficando longe. Isto demanda uma força de espírito muito grande.

E isso é o que diz o profeta Zacarias (4: 6): "Não por exércitos e não por força, mas somente através do meu espírito diz o Senhor Todo-Poderoso". Nós nos tornamos dependentes demais do poder físico e desprezamos o espiritual, quando o que precisamos agora para vencer é só força de espírito.

O embaixador americano em Israel, David Friedman, escreveu num artigo dizendo que precisamos de mais humildade. Temos inteligência artificial, big data, robótica, transplante de órgãos e terapia genética, mas um vírus salta de um animal infectado em Wuhan para um ser humano e põe o mundo completamente de joelhos!

Talvez uma das lições que o vírus esteja nos ensinando é a sermos mais humildes e menos egoístas em relação aos nossos próprios avanços.

Precisamos também ser mais caridosos. Como este nano vírus está nos mostrando, somos todos interdependentes. O que acontece a milhares de quilômetros de distância pode nos afetar profundamente em pouco tempo. Mas ao mesmo tempo, devemos confiar em nós mesmos para nos proteger, e não ter nossa saúde ou bem-estar dependentes de nações estrangeiras que têm suas próprias prioridades. Aprendemos com esta crise que precisamos fabricar nossos próprios remédios, ventiladores e máscaras. Mesmo se forem mais baratas na China. Como o sábio do primeiro século da Mishnah Hillel disse: "Se não sou por mim quem será por mim, e se sou apenas para mim, o que sou?" (Ética dos Pais, 1:14). Talvez o vírus esteja nos ensinando a fazer um trabalho melhor, encontrando o equilíbrio certo.

É interessante que a mão de Deus pode ser mais poderosa quando menos visível. Aprendemos isso com as 10 pragas infligidas ao Egito que recontaremos esta semana durante o Seder. As nove primeiras pragas foram todas visivelmente sobrenaturais, do sangue no Nilo à escuridão e muito mais. Nenhum deles foi suficiente para convencer o Faraó a libertar os israelitas da escravidão.

Somente a décima praga - que foi simplesmente uma doença que atingiu os primogênitos egípcios no meio da noite - silenciosa, invisível e mortal – foi que levou ao Êxodo. Talvez o vírus esteja nos ensinando que Deus permanece no comando do mundo, mesmo que seu controle não seja visível.

Todas estas lições ficarão conosco, com esta geração que presenciou este evento sem precedentes ou igual na história e com certeza irão nos mudar. Mas talvez a maior de todas elas virá quando tudo tiver terminado, quando tivermos mais uma chance, talvez a última, para reafirmarmos a alegria e o valor do contato humano, do face-a-face, do olho-no-olho, do coração no coração para com os que amamos. 

Desejo a todos uma Páscoa significativa, reflexiva e que todos nós possamos sair desta pandemia com valores maiores e muita saúde física, espiritual, individual e coletiva.



Sunday, March 29, 2020

A Corajosa Ação de Benny Ganz - 29/03/2020


Esta semana, além das terríveis noticias sobre a propagação do corona virus que continua a dominar o noticiário, tivemos uma verdadeira revolução em Israel.

Faltando alguns minutos para o prazo expirar para membros da Knesset se apresentarem sua candidatura à porta-voz da Knesset, repentinamente, Benny Ganz, o líder do partido Azul e Branco depositou a sua.

Isto em si não seria algo surpreendente não fosse o fato que ele recebera os 61 votos para formar o governo e ser primeiro-ministro.

Mas para entender este drama, precisamos voltar um pouco atrás.

Já faz um ano e meio que Israel está sem um governo formado de modo apropriado. Além de não conseguir aprovar orçamentos para os ministérios, inclusive o de defesa, agora com o corona vírus, a situação se complicou.

Na última eleição, o indisputável vitorioso foi Netanyahu do Likud. Apesar dele estar sob indiciamento e seu julgamento ter que começar neste mês ainda, isto não foi suficiente para balançar os eleitores. E desta vez, não foi um empate ou algo parecido. O Likud ganhou dois assentos a mais que o Azul e Branco. Com os outros partidos de direita ele chegou a 58 assentos, 3 a menos que os 61 que precisava para formar o governo sem concessões.

Como Bibi não conseguia os outros três, Ganz – contrariamente ao que havia prometido em sua campanha - então pediu o partido árabe, que na verdade é uma coalisão de partidos árabes, para lhe dar a oportunidade de formar um governo de esquerda e derrubar o Netanyahu de uma vez por todas.

Os árabes, com 15 assentos deram a Ganz os 61 votos que ele precisava, mas todos sabiam que esta era apenas uma maioria técnica.

E porque Ganz pediu aos árabes para formar o governo? Tudo isso era apenas uma manobra política para ganhar o controle da Knesset e aprovar uma lei que impedisse qualquer um de ser primeiro ministro se estivesse indiciado. Em outras palavras, uma manobra para barrar Bibi Netanyahu enquanto ele não fosse inocentado das acusações.
Esta manobra não foi desenhada por Ganz, Bougy Ayalon ou Gaby Ashkenaki. Ela foi o bebê político do veterano Yair Lapid que tinha um acordo com Ganz, que o porta-voz da Knesset seria seu homem, Meir Cohen. E iria ser assim:

Com 61 votos, Ganz iria pedir ao presidente da Knesset Yuli Edelstein do Likud, para convir um plenário da nova Knesset e votar um novo presidente, tirando Edelstein do cargo. Yuli se recusou – e com razão já que os 61 eram apenas votos técnicos e não de um novo governo. Aí o Azul e Branco peticionou para a Suprema Corte para forçar Edelstein a convir o plenário. A Suprema Corte de Israel, sabidamente de esquerda, com juízes todos de esquerda, mandou Edelstein convir o plenário. Notem que o Conselheiro Legal da Knesset, mandou uma resposta à Suprema Corte de várias laudas, mas em menos de 25 minutos, a juíza presidente publicou sua decisão de 19 páginas, sem ao menos lidar com os argumentos da própria Knesset.

Gente, há uma razão pela qual em toda a democracia, há uma separação de poderes. O Executivo não pode impingir sobre o Legislativo ou este sobre o Judiciário e vice-versa. Este principio existe há 300 anos, foi criada para evitar que o poder de governo não fosse deixado inteiramente a um corpo ou a uma pessoa. O legislativo passa as leis que têm que ser aplicadas pelo executivo e serem cumpridas pelo judiciário. O Executivo não pode forçar o Judiciário a julgar um caso e muito menos o Judiciário pode forçar o Legislativo a convir um plenário.

Vendo este circo acontecer, Yuli Edelstein tomou a decisão mais sábia e resignou do cargo. Sem ele ou um substituto, não havia como convir um plenário e até outro ser escolhido levaria alguns dias. Por isto ele foi literalmente pisoteado pela mídia que, como a Suprema Corte, também é de esquerda.

Mas voltando aos eventos, tudo o que Lapid queria era se vingar de Bibi. Não importa se seu partido Azul e Branco não conseguisse formar o governo ou jogasse o país, no meio de uma crise sem precedentes, literalmente no lixo. Isto era algo pessoal que tinha que ser resolvido e tinha precedência sobre o destino do país.

Quando no começo da semana o presidente Rivlin se encontrou com ambos Bibi e Ganz, Ganz entendeu que era preciso formar pelo menos um governo de emergência para lidar com a situação do vírus. Após longas negociações em que ele conseguiu espremer o máximo de concessões de Netanyahu, Ganz  tentou convencer seus colegas de partido que havia chegado a hora de um acordo de união para formar o governo.

Vendo seu jogo desmoronar, Yair Lapid passou ao ataque contra Ganz. Ayalon que também tem ressentimento de Bibi por não ter estendido sua posição de chefe-de-estado maior como de praxe, se juntou ao Lapid. Sem outra opção viável, Ganz, com o apoio do Likud e dos partidos de direita então se candidatou a presidente da Knesset, provavelmente de modo temporário pois lhe espera um cargo de ministro ou vice-premier de Israel.

Quem saiu perdendo nesta história? O Yair Lapid e Bugy Ayalon, com certeza. Mas também Avigdor Lieberman que amarrou as eleições anteriores e apesar de ser de direita se declarou disposto a negociar com os árabes só para se livrar de Netanyahu. Este saiu sem nada.

Não é fácil ser político, ainda mais num país tão cheio de desafios como Israel. Com certeza Bibi apelou para o senso de patriotismo de Ganz, mostrando o que estão enfrentando, não só com o vírus, que se tornou premente, mas com os contínuos ataques vindos de Gaza. Sim, porque se pensaram que eles pararam, pois bem, não.

Netanyahu mostrou mais uma vez que é um político muito temperado e consegue tirar água de pedras. Mas para isso ele também precisou uma contraparte com audácia suficiente para tomar uma decisão difícil em prol do país, em detrimento de seus colegas de partido.

Para aqueles que chamaram Ganz de verme, de animal de estimação de Bibi e outras coisas  mais, saibam que ao contrário de vocês, por enquanto, ele irá entrar para a História como um estadista corajoso.



Sunday, March 22, 2020

O Antissemitismo e o Corona - 22/03/2020


Enquanto o mundo se mobiliza para combater de modo positivo esta epidemia que afeta a todos sem discriminar raça, idade, sexo ou credo, os antissemitas não deixaram passar a oportunidade de espalhar conspirações e culpar a quem pelo vírus? É claro, os judeus e Israel.

A atriz Rosanna Arquette que diz não ser antissemita por ter tido uma mãe de origem judia, twittou esta semana para os seus mais de 100 mil seguidores que “estava confusa” que “Israel estaria trabalhando em uma vacina para o coronavirus há um ano? Isto quer dizer que eles sabiam?” E continua: “Vacinas levam muito tempo para serem testadas quanto à segurança e o Oscar Kushner, é o maior investidor desta nova vacina que supostamente será trazida para cá. Vidas estão em perigo por lucro”.

Oscar Health é o nome de uma empresa de saúde criada em 2013, que como todas as outras está contribuindo para solucionar esta crise. Ela é subsidiária de uma empresa chamada Mulberry Health que tem entre vários sócios, uma sociedade chamada Thrive Partners LP que por sua vez pertence, junto com outros vários investidores à Thrive Partners Limitada e que por sua vez tem como um dos sócios, o irmão do genro do presidente Trump, Joshuah Kushner.

Por mais remoto que seja o contato entre um judeu com a empresa, já foi decidido que o judeu, ou os judeus, estão tentando lucrar com esta pandemia. Enquanto tentamos olhar o presente e planejar o futuro, estes vermes continuam no passado, repetindo-o constantemente, usando novos protagonistas em nossos tempos, esperando obter um resultado diferente, algo mais do que a derrota que têm sofrido todos estes séculos.

As mensagens que estão sendo disseminadas desde Janeiro espalham ódio e desinformação, tornando mais difícil acessar informações precisas e aumentando o nível de ansiedade. Enquanto algumas mensagens são novas, a maioria são velhas acusações com roupagem moderna.

Muitas teorias antissemitas da conspiração postulam que os judeus têm influência e que eles manipulam eventos para expandir seu poder, freqüentemente citando pessoas específicas como a família Rothschild. Mas nas últimas semanas, tem havido uma onda crescente de mensagens dizendo que os judeus e/ou Israel criaram ou espalharam o coronavirus para alcançar o controle do mundo. Numa mensagem do dia 15 de março, o vírus é mostrado como a cabeça de um cavalo de Troia com judeus na sua barriga.

No Twitter, uma mensagem mostrou a suposta imagem do virus sob o telescopio, em que ele aparece com várias cabeças caricaturadas como judeus, com a estrela de Davi na kipa, sorrindo maliciosamente.

Outra mensagem do Twitter promoveu uma conspiração antissemita relacionada com a lei marcial e dizendo que a FEMA, a Agência Federal de Gerenciamento de Emergência dos Estados Unidos era controlada pelo Beit Chabad, que, vejam o absurdo, teria o Rabino Jarred Kushner como Messias e sua mulher Ivanka como a futura Rainha Ester.

Outra onda que está correndo solta é o estereotipo do judeu que procura lucrar com a miséria dos outros. Desde os primeiros dias da pandemia, os antissemitas têm acusado os judeus de lucrarem com o vírus: desde a vacina, até a volatilidade dos mercados financeiros e através de empréstimos a pessoas necessitadas.  Estas mensagens são acompanhadas da imagem do mercador gordo e sorridente, com o nariz curvado e comprido e outros traços típicos dos judeus.

Como não poderia deixar de ser, muito do conteúdo antissemita das mensagens compartilhadas online descrevem Israel como um ator malicioso que criou ou estaria usando o coronavirus para alvejar seus inimigos, especialmente os palestinos. Outros usam o vírus para criticar as políticas do Estado de Israel, que no final, perpetuam tropos antissemitas. 

Num cartoon postado no Twitter e Facebook há alguns dias, uma idosa palestina está forçada a ficar exposta ao vírus enquanto um soldado israelense aponta uma arma para ela. O usuário que compartilhou a imagem escreveu que Israel e o vírus estão trabalhando juntos contra os “palestinos nativos” chamando os israelenses de estrangeiros ocupadores.

Numa outra postagem do dia 18 último, uma foto com judeus religiosos, um deles lavando as mãos, dizia: meu bolso está em quarentena desde janeiro. No meio tempo, nossos senhores de escravos jogam todos os shekels dos juros com os quais eles escravizaram o mundo.

Outro twit do dia 10 de março pergunta se o coronavirus foi uma punição enviada por D-us pelo Sionismo. Outro ainda do dia 14 declarou que “seis milhões de judeus israelenses agora sentiram o gosto do que o mesmo numero de palestinos que vivem sob a ocupação têm passado nos últimos 50 anos”.

E para não ficar para trás, no dia 16 de março último, a Nação do Islã twitou uma mensagem sugerindo que Israel desenvolveu o coronavirus como uma arma para assassinatos em resposta à noticia que um instituto de pesquisa de Israel teria desenvolvido uma vacina para o vírus.

Para terminar, vários sites e mensagens foram postadas comemorando a chegada do vírus a Israel e torcendo para que as sinagogas fossem contaminadas. Uma delas perguntou como em 2020 a China não consegue cremar algumas centenas de corpos por dia quando os nazistas cremavam mais de 4 mil em 1940.

Pessoal, se já não bastasse o pânico, as perdas de familiares, a situação econômica mundial que é preocupante, ainda temos que lidar com este tipo de imbecilidade.

Sabem porque há pesquisas sobre o vírus há mais de um ano? Na verdade desde 2004? Porque em 2003 houve uma epidemia de SARS. Lembram? O Covid-19 é só um novo SARS. 

Temos não que reclamar mas vociferar toda a vez que lemos ou ouvimos estes absurdos medievais. Chegou a hora no século 21 de desbandarmos estas conspirações ridiculas e tratarmos de modo objetivo com os problemas que se apresentam.