Sunday, December 8, 2024

A Queda de Bashar Assad - 08/12/2024

 

Quem não gosta da situação no Oriente Médio, espera só um minuto. Ou para ser mais exata, um dia.

Até ontem, pensei em falar aqui sobre o antissemitismo que continua crescendo em todo o mundo, o bombardeamento da sinagoga em Melbourne na Australia, o absurdo relatório da Anistia Internacional e outras pérolas. Mas hoje acordamos com um novo Oriente Médio e a queda do tirano e sangrento governo de Bashar al-Assad da Síria. O pesadelo dos sírios que durou 54 anos, 34 dos quais ocupando o Líbano, 13 numa horrenda guerra civil, cessou hoje. Pelo menos hoje.

Assad matou nada menos que 400 mil dos seus próprios cidadãos, usando bombas e até armas químicas contra regiões inteiras, incluindo subúrbios de sua própria cidade, Damasco para continuar no poder. Qualquer um que expressasse qualquer crítica era preso na infame prisão de Sednaya onde tortura e morte eram ocorrências diárias.

Quando a guerra civil começou, Assad buscou e obteve a ajuda do Irã e da Rússia. Isso porque os dois países investiram bilhões no país e têm grandes interesses na Síria. Para o Irã, a Síria era o corredor para passar armas e apoio financeiro para a Hezbollah no Líbano, seu maior e melhor treinado exército estrangeiro, além de ter gastado bilhões em bases e armazéns no país. Os russos investiram pesadamente e hoje controlam um porto e uma base aérea que dá a eles uma presença no Mediterrâneo e a possibilidade de ameaçar a Europa.

E o incrível é que provavelmente nada disso teria ocorrido não fosse o 7 de outubro de 2023, quando o Hamas atacou Israel com uma barbaridade sem precedentes, pensando que iriamos reagir como o exército sírio, que desbandou e fugiu. Em vez disso, Israel se uniu e reagiu, destruindo o Hamas e a Hezbollah, quebrando o anel de fogo que o Irã queria formar em torno do estado judeu. Com a Hezbollah dizimada, a Rússia presa na guerra contra a Ucrânia, e o Irã enfraquecido devido ao ataque israelense às suas bases e depósitos de mísseis, os rebeldes sunitas da Síria aproveitaram a oportunidade e em menos de uma semana, libertaram as principais cidades sírias, forçando Assad a fugir com sua família.

A pergunta para nós agora, é: O que está acontecendo na Síria é bom ou ruim para Israel? E como responder à pergunta "se meu inimigo que é inimigo do meu inimigo está lutando contra meu inimigo, do lado de quem eu fico?" Ou, em outras palavras, quem Israel menos gostaria de ver estacionado em sua fronteira com a Síria: extremistas jihadistas xiitas apoiados pelo Irã ou extremistas jihadistas sunitas apoiados pela Turquia?

Como a resposta é nenhum dos dois, Israel provavelmente ficará fora desta briga, a não ser que sua segurança seja ameaçada.

E quem são estes rebeldes que hoje dominam a Síria?

Eles não são um grupo, mas uma aliança de jihadistas sunitas radicais, antes aliados à Al-Qaeda (chamada Hayat Tahrir al-Sham), e islâmicos apoiados pelo presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Todos são liderados por Abu Mohamed al-Jalani, que está na lista dos terroristas procurados pelos Estados Unidos com uma recompensa de 10 milhões de dólares por sua captura.

O problema é que o que acontece na Síria, não fica só na Síria. A Turquia tem muito interesse em controlar o que acontecerá com seu território. Erdogan está interessado em reassentar os 3,5 milhões de refugiados sírios que estão no seu país. A crise dos refugiados sírios tem se tornado cada vez mais uma questão doméstica na Turquia, onde — em meio a uma crise econômica — houve uma reação contra os refugiados, que prejudicou Erdogan nas eleições locais e parlamentares.

Além disso, Erdogan espera que ao colocar os 3,5 milhões de refugiados no norte da Síria, ele poderá conter e potencialmente remover a ameaça que ele percebe dos grupos curdos no nordeste da Síria, que contam com o apoio americano.

Diferentemente dos palestinos, os Curdos têm sua própria língua, cultura e história. Eles contam com quase 50 milhões de pessoas nativos do Curdistão, um território integro que ficou dividido em parte da Turquia, do Irã, do Iraque e da Síria como resultado dos acordos de paz dos aliados depois da Primeira Guerra Mundial. Com a queda de Assad, os Curdos querem reivindicar sua parte no território e declarar sua independência, o que é totalmente inaceitável para Erdogan. Agora, o sucesso dos rebeldes dá a Erdogan uma vitória e fortalece sua posição sobre o que irá acontecer na Síria no futuro.

Com a Turquia sendo o grande vencedor, vamos ver o grande perdedor: o Irã.

Teerã investiu bilhões na Síria desde o início da guerra civil, vendo o país como central para seus esforços de cercar Israel com um "anel de fogo" como já falei.

O interesse do Irã é claro: preservar a Síria como um canal de armas para a Hezbollah e como uma plataforma da qual ele pode produzir armas para o grupo terrorista libanês e reconstruir seu principal exército estrangeiro. Com a queda de Assad, esse canal estará perdido. O Irã se gabava no passado de controlar 4 capitais árabes: Beirute, Damasco, Bagdad e Sana’a. O Irã perdeu Beirute e Damasco e não estamos vendo os aiatolás alocarem seu próprio exército, suas milicias iraquianas, paquistanesas ou afegãs para lutar contra os rebeldes.

Com a queda de Assad os mulás de Teerã perdem sua influência regional e esse trunfo.

Outro grande perdedor neste domingo é a Rússia. Moscou interveio ativamente em 2015 na guerra civil síria e, sua entrada definiu a guerra a favor de Assad. A intervenção de Moscou decorreu de vários interesses que são tão importantes para o Kremlin hoje quanto eram naquela época.

O primeiro é que, por meio da Síria, a Rússia é capaz de projetar poder em todo o Oriente Médio e combater a influência dos EUA na região. Segundo, Assad deu à Rússia o estratégico porto mediterrâneo de Tartus, bem como a base aérea perto de Latakia. Os acordos com Assad permitiriam que a Rússia operasse o porto e a base aérea pelos próximos 50 anos, se não mais. Putin sabe do significado estratégico destas bases para Moscou, o que explica por que, em meio à sua guerra com a Ucrânia, na última semana, o exército russo realizou bombardeios contra os rebeldes no norte da Síria, tentando, sem sucesso, deter seu avanço.

Moscou ainda tinha interesse em mostrar que protegeria seus outros aliados – uma das razões pelas quais a rápida derrota das forças de Assad nesta semana é um total constrangimento para o Kremlin. A fuga de Assad destrói a posição do Kremlin e a percepção que a Rússia quer projetar de que – diferentemente dos EUA – é uma superpotência na qual seus aliados podem confiar para garantir que não caiam.

E Israel?

Israel é sem dúvida, um ator nesse drama. E diferentemente dos outros que têm interesses amplos, Israel tem interesses bem definidos na Síria. O primeiro e o principal interesse é o de enfraquecer o eixo Irã-Síria-Hezbollah e impedir que o Irã use a Síria, como fez no passado, para rearmar e reabilitar a Hezbollah.

Um regime sírio enfraquecido com Assad, portanto, era do interesse de Israel. Mas aqui está o problema: Israel gostaria de ver Assad enfraquecido, mas não muito, e não derrubado.

Esse é o paradoxo.

Por que isso? Para que a Síria não consiga, por gerações, representar uma ameaça direta a Israel. A longa guerra civil tirou a Síria do círculo de países que podiam representar uma ameaça convencional. Notem que desde o 7 de outubro, Assad teve muito cuidado em não abrir uma frente adicional contra Israel, para não dar a ela nenhum pretexto para atacar o exército sírio.

No ano passado, o exército de Israel alvejou uns 70 alvos na Síria, mas esses foram principalmente ativos iranianos e da Hezbollah, não ativos pertencentes ao exército sírio.

Quanto ao motivo pelo qual Israel não gostaria de ver Assad derrubado, é porque isso pode levar ao caos, algo raramente bom para Israel.

Embora Assad não seja amigo, Israel pelo menos sabe o que esperar dele — o que ele pode e não pode fazer, o que ele fará e o que não fará. Um novo governante em Damasco da variedade jihadista sunita ou xiita seria imprevisível.

Ainda, Israel não quer a Iugoslavização da Síria, isto é, a quebra do país sob a influência de várias milicias ou grupos com agendas diversas, o que seria muito difícil de prever e controlar.

De qualquer forma, e por enquanto, se Israel vir o Irã tentando transferir armas para a Hezbollah, ela irá agir. Israel já colocou tropas na fronteira síria e vejam a que absurdo chegamos: vendo um ataque dos rebeldes às forças da ONU no sul da Síria, o exército de Israel fez uma incursão para salvar as tropas da ONU. Agora podemos esperar uma nova condenação da ONU por Israel ter adentrado o território de outro país sem permissão.

Mas, tirando disso, Israel irá deixar seus inimigos se resolverem entre si enquanto continua a “monitorar a situação”.

Até agora, o primeiro-ministro da Síria foi ao ar e declarou que irá passar o governo pacificamente para quem o povo quiser. Tudo o que podemos fazer agora é rezar para que a transição seja de fato tranquila.

Mas hoje, só hoje, porque amanhã podemos ter algo totalmente inverso, mas hoje vamos comemorar a felicidade do povo da Síria, a felicidade dos prisioneiros políticos já libertados, que suportaram o pior e pagaram tão caro, pela queda deste regime que ficará na história como um dos mais brutais e sangrentos da história.

 

Sunday, December 1, 2024

O Uso da Lei para a Guerra - 01/12/2024

 

Na capital da Holanda, há algumas semanas gangues violentas organizadas saíram às ruas caçando torcedores israelenses de futebol forçando Israel a rapidamente evacuá-los de volta ao país. O próprio rei holandês reconheceu que pela segunda vez, desde o Holocausto, seu país falhou em proteger os judeus.

No meio tempo, em Haia, a uns 65 km de distância de Amsterdã, outro ataque a Israel estava sendo organizado, desta vez, um ataque vestido da mais alta credibilidade. O promotor do Tribunal Penal em Haia, Karim Khan anunciou a emissão de mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da defesa Yoav Gallant, o que os tornaria sujeitos à prisão caso pisassem em qualquer um dos mais de 100 países que respeitam a decisão do tribunal. A ironia é que a Holanda foi o primeiro país a anunciar que cumpriria esses mandados de prisão.

E sim, este é o mesmo Karim Khan que está sendo investigado por abuso e agressão sexual contra várias vítimas. Khan, é claro, deve ser presumido inocente até que se prove o contrário — é assim que deve funcionar um sistema de justiça. A menos que o acusado seja o Estado de Israel.

Durante anos, o Tribunal Penal Internacional em Haia afirmava ter reconhecido o sistema judicial de Israel como imparcial e cumpridor do direito internacional e por isso sua intervenção não era necessária. As decisões da Suprema Corte de Israel frequentemente provocaram indignação entre oficiais e políticos do exército, pois eram vistas como injustificadas e necessárias apenas para proteger os soldados do alcance do Tribunal Penal Internacional. Não mais.

A decisão deste Tribunal não deve ser confundida com o julgamento que ocorre simultaneamente na Corte Internacional de Justiça, também em Haia. O presidente da Corte, o libanês muçulmano Nawaf Salam, é um ex-diplomata libanês conhecido por seu ativismo anti-Israel que pulou na oportunidade de trazer um caso contra o estado judeu.

Khan inicialmente pediu mandados de prisão contra Netanyahu e Gallant, juntamente com os líderes do Hamas Yahya Sinwar, Ismail Haniyeh e Mohammed Deif - os arqui-terroristas mentores da invasão de 7 de outubro.

O absurdo é a equivalência moral terrivelmente equivocada que busca colocar os açougueiros do Hamas na mesma categoria dos líderes democraticamente eleitos de Israel defendendo seu país. E para Khan parece irrelevante o fato de que os três terroristas já estejam no inferno.

E a coisa não pára com estes Tribunais. Um editorial do Wall Street Journal desta semana noticiou que a ONU decidiu não renovar o contrato da Conselheira Especial para a Prevenção do Genocídio Alice Wairimu Nderitu, uma jurista keniana, porque ela se recusou a incluir as ações de Israel em Gaza como "genocídio".

Parece que o espírito do Hamas e Hezbollah não vive só nos túneis de terror de Gaza mas nos corredores de Haia. Na narrativa palestina, eles são as vítimas, não os perpetradores de 7 de outubro. As mais de 1.400 vítimas israelenses — aquelas de todas as idades queimadas até a morte, decapitadas, mutiladas, estupradas ou sequestradas — não contam para nada.

O foco está nos moradores de Gaza mortos na guerra de defesa de Israel. E é sempre bom lembrar que havia um cessar-fogo em vigor em 6 de outubro de 2023. O Hamas e o Jihad Islâmico o quebraram durante sua invasão ao Sul, enquanto a Hezbollah se juntou no dia seguinte com centenas de mísseis lançados indiscriminadamente contra o Norte, cada um deles um crime de guerra não investigado.

As acusações são absurdas. Khan decidiu que o tribunal havia encontrado "motivos razoáveis" de que Netanyahu e Gallant cometeram o crime de guerra "de usar a fome como método de guerra e crimes contra a humanidade".

A acusação de fome é uma calúnia. Israel forneceu enormes quantidades de ajuda humanitária a Gaza durante a guerra. Desde 7 de outubro, Israel entregou mais de 58.000 caminhões transportando mais de 1,3 milhão de toneladas de alimentos, remédios e outros suprimentos em Gaza - excedendo em muito as necessidades humanitárias. Em março e abril de 2024, o Sistema Internacional de Classificação da Fome confirmou que Israel estava fornecendo a Gaza de 109% a 157% de suas necessidades calóricas diárias. Não há fome.

Quando os corpos de seis reféns israelenses recém-executados pelo Hamas foram encontrados em um túnel em Gaza em setembro, Eden Yerushalmi, de 24 anos, pesava apenas 36 kg. Isso é fome. Quando o corpo de Sinwar foi recuperado, não havia sinais de que ele não estava comendo. Se os "habitantes comuns de Gaza" estão sofrendo, isso tem a ver com o Hamas roubando a ajuda e vendendo-a a preços inflacionados para pagar seus terroristas.

Através destas ações destes tribunais, estamos testemunhando uma profunda desordem, uma inversão moral do Ocidente. Quando os judeus novamente se tornaram alvos de assassinato racista, estes tribunais foram atrás dos judeus, das vítimas. Quando os próprios valores do mundo civilizado foram derrubados pelos estupradores e racistas do Hamas, eles essencialmente recompensaram o Hamas concordando com ele que o estado que ele odeia é de fato o pior vilão.

Estes são os primeiros mandados de prisão contra um líder de um estado ocidental democrático, mas é improvável que sejam os últimos. Estes terroristas para quem sequestro e assassinato são um modo de vida, também sequestraram os órgãos internacionais. É urgente que o mundo democrático olhe quem o tribunal está protegendo– os jihadistas do Hamas, e minando o direito de Israel à autodefesa e encorajando o Irã e seus proxies. Uma verdadeira farsa da justiça.

Um artigo do Telegraph no início desta semana destacou as implicações desta decisão do TPI, afirmando: “A acusação de crimes de guerra contra os líderes de Israel levanta questões profundas sobre a capacidade das democracias de se defenderem”. Desde o ataque brutal do Hamas em 7 de outubro, Israel tem se envolvido em medidas de autodefesa alinhadas com a lei internacional, visando infraestrutura terrorista.

Será que a Grã-Bretanha e seus aliados teriam prevalecido se Winston Churchill tivesse enfrentado o espectro das acusações de crimes de guerra? Sim porque acreditem, Adolf Hitler acusou Winston Churchill e os outros líderes aliados, de crimes de guerra durante a Segunda Guerra Mundial.

A decisão do Tribunal Penal Internacional recompensa o extremismo, mina a estabilidade do Oriente Médio e encoraja aqueles que buscam a destruição de Israel. É um lembrete gritante que o que começa com os judeus, nunca termina com os judeus. Não vamos esquecer que para estes terroristas islâmicos, Israel é só o pequeno Satã. O grande Satã é os Estados Unidos e o resto do Ocidente.

Sunday, November 24, 2024

Zvi Kogan Morto nos Emirados e o Antissemitismo Desenfreado - 24/11/2024

 

Como lemos a cada ano na Pascoa, a cada geração alguém se levanta para nos destruir. Na Páscoa de 2023, recitamos este verso como algo passé. Claro, Israel vive cercada por inimigos, mas até outubro de 2023, parecia algo gerenciável.

E aí tivemos a Páscoa de 2024. E nos demos conta que esta geração, é a de agora.

A diferença, desta vez, é ver se conseguimos identificar quem é este “alguém” que se levantou para nos destruir. Isso porque esta geração está sofrendo ataques de dois lados opostos, tentando erradicar o Judaísmo – sim porque não é uma questão de raça, de crença ou território, mas é o mesmo antissemitismo milenar que se levantou novamente com o rótulo de antissionismo e a identificação de qualquer judeu do mundo com o Estado judeu: o primeiro ataque é uma tentativa de destruição física vindo do Irã, não só de Israel, mas dos judeus.

Neste final de semana recebemos a terrível notícia do assassinato do rabino Zvi Kogan, um emissário do Chabad nos Emirados Árabes a mando do Irã. Quanta coragem estes mulás precisaram para sequestrar um religioso e matá-lo? Como o quê? Como retaliação contra Israel pela destruição dos seus depósitos de mísseis? Seria engraçado se não fosse tão trágico. Sim, eles podem matar judeus aqui e lá, mas não poderão erradicar o Judaísmo.

Mas o segundo ataque, é muito mais perigoso e ameaça a própria existência do Judaísmo no Ocidente. E ele é feito não através de guerras ou ataques físicos, mas através de uma ideologia perniciosa e indiciamentos.

Enquanto Israel tem os instrumentos, decisão, e criatividade para lidar com os ataques físicos, ela ignora os ataques ideológicos. Mas o que está acontecendo nos quatro cantos do mundo, da Austrália para as Américas, passando pela Europa e Asia, é uma tentativa do Ocidente de deslegitimar a ideia do Estado Judeu e por tabela, negar a ideia do Judaísmo.

Com a decisão esta semana da Corte Internacional de Justiça, um organismo que tenho dificuldade de chamar de Corte, o inimaginável há apenas um ano, a prisão em massa de judeus na Europa, está tomando forma. Além do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa, Yoav Galant, estes “promotores” que nunca foram para Israel ou Gaza, que nunca entrevistaram ou interrogaram qualquer pessoa, e que tomam a palavra do Hamas como verdade absoluta, emitiram mandados de prisão velados também contra judeus que serviram no exército de Israel, aqueles que vivem ou trabalham na Judeia e Samaria e aqueles que, vejam bem, “apoiam os crimes de guerra” dos judeus descritos acima – em suma, todos os judeus de Israel e provavelmente uma grande parte dos que vivem na diáspora.

É claro que é preciso ter a opinião pública do seu lado para justificar uma ação antijudaica tão chocante. Mas do mesmo modo que isso foi feito na década de 1920, o mundo está repetindo exatamente o roteiro, e culpando os próprios judeus por estas medidas.

Em que mundo um país democrático, com um governo eleito democraticamente, aonde todas as etnias são representadas, que está em guerra, sendo atacado impiedosamente em 7 frentes todos os dias com centenas de mísseis, drones e veículos aéreos não-tripulados, tem seu primeiro-ministro e seu ministro da defesa indiciados por crimes de guerra sem qualquer investigação?

E países iluminados e que se dizem “amigos de Israel” como a França, a Bélgica e outros, já anunciaram que irão obedecer o mandado de prisão contra Netanyahu, Galant e qualquer outro judeu que estiver na lista. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, continua a doutrinar sua população e quem está disposto a ouvi-lo. Ele diz que os judeus de Israel matam mulheres, crianças e bebês. O presidente Biden deu carta-branca ao seu Departamento do Tesouro e de Estado para impor sanções contra judeus que vivem na Judeia e Samaria. E até o Papa pediu uma investigação para determinar se os ataques militares de Israel em Gaza constituem genocídio.

De novo, só para deixar claro. Quando Israel tomou Gaza em 1967, a população árabe era de 60 mil. Hoje é mais de 2 milhões. Se isso é genocídio, Israel é bem incompetente.

O que estamos vendo é uma mentalidade de aceitação da culpabilidade judaica. Como na Idade Média quando todos aceitavam que eram os judeus que haviam provocado a peste negra envenenando os poços de água. Somente se o judaismo e Israel desaparecessem, nada disso estaria acontecendo com eles. Sim. Já vimos este filme antes e esta é uma reprise. Que judeu será o próximo?

Desta vez o ataque aos judeus é mais sofisticado do que na década de 1920. Há 100 anos, os judeus foram acusados de contaminar a humanidade com a sua sub-raça, de ocupar a Europa, apesar de representarem um pouco mais que 1.5% da população total, e de corromper o tecido da sociedade europeia com suas ações malignas. Isso foi suficiente para recrutar a maioria da população europeia e até americanas. Não podemos esquecer que Hitler foi escolhido o Homem do Ano pela revista Time em 1938. A consequência foi a eliminação de 1/3 de todos os judeus do mundo.

Hoje, os judeus são novamente acusados de cometerem crimes contra a humanidade, de ocupar Gaza, de ocupar a Palestina (do rio ao mar) e de desestabilizarem o mundo. E do mesmo modo que em 1920 os judeus foram acusados de causar a primeira guerra mundial, hoje somos acusados de sermos a causa de uma possível terceira guerra mundial com nossas ações contra o Líbano, Gaza, a Síria, o Iêmen, o Iraque e o Irã.

A diferença entre o antissemitismo das décadas de 1920 e 2020 é que hoje ela é mais difundida pela mídia social e pior, é sancionada por organismos como a ONU, a União Europeia, a Corte Internacional de Justiça e principalmente na mídia tradicional.

E apesar de isso estar escancarado para todos verem, e ser inclusive o tema do livro de Gol Kalev “O ataque ao judaísmo: a ameaça existencial que vem do Ocidente”, muito pouca atenção está sendo dada a este problema.

Isto é devido em parte ao fato de muitos judeus na diáspora sentirem que isso não é com eles. É só com os judeus de Israel. Igualzinho como os judeus alemães que se consideravam primeiro bons alemães e que o problema era com os judeus russos.

Mas quando levantamos este problema, a resposta é invariavelmente que temos mísseis atacando o território de Israel todos os dias, os reféns ainda estão em Gaza, famílias separadas morando em hotéis por mais de um ano, seus negócios e trabalhos fechados, e filhos, pais, irmãos, maridos, noivos no exército, todos os dias algum deles dando a vida para defender o país.

Então o foco está na luta física, na guerra contra o Irã e seus proxies.

Mas o veneno já permeou o Ocidente. As passeatas em favor do Hamas dois dias após o massacre de 7 de outubro; os acampamentos nas universidades mais prestigiosas da América e da Europa; o pogrom em Amsterdã; os ataques diários a judeus nos Estados Unidos, de Nova Iorque à California; hotéis na Itália que recusam reservas de judeus e israelenses; ataques em escolas desde o fundamental até o ensino superior. E, como nos anos 1920 e 30, os judeus estão relegados mais uma vez a esconderem sua origem e sua crença judaica.

A lição do século passado é não esperar até ser tarde demais. Tenho certeza que Israel irá atrás de quem matou o rabino Zvi Kogan nos Emirados mas e os outros tantos ataques mundo afora que ficarão impunes? Quem pensaria que os loucos anos 20, dos filmes, do jazz, trariam o Holocausto, que erradicaria a maioria dos judeus europeus, apenas 20 anos mais tarde?

Hoje não precisamos imaginar. Está claro demais. O ataque ideológico ao judaísmo está se expandindo rapidamente e se tornando cada vez mais “normalizado”. Mas para combatê-lo precisamos tomar o primeiro passo: reconhecer que ele existe.